
Por Christiano de Souza Pereira, Superintendente Comercial da CrediPronto
Sempre que o Brasil se aproxima de uma eleição, um comportamento conhecido volta a aparecer nas decisões de consumo: a ideia de esperar o resultado das urnas antes de assumir compromissos financeiros importantes.
No mercado imobiliário, essa percepção ganha ainda mais força. Afinal, comprar um imóvel envolve planejamento, crédito, investimento relevante e uma decisão que pode acompanhar uma família durante muitos anos.
Mas será que esperar as eleições passarem é realmente a melhor estratégia?
Os dados de 2026 mostram que boa parte dos brasileiros que pretende comprar um imóvel não está colocando seus planos em pausa por causa do calendário eleitoral. Ao mesmo tempo, vendas continuam acontecendo, a intenção de compra permanece elevada e o crédito segue movimentando o setor.
O mercado imobiliário responde ao ambiente econômico, naturalmente, mas sua dinâmica é sustentada também por fatores que independem do resultado de uma eleição: necessidade de moradia, formação de patrimônio, mudança familiar, investimento e disponibilidade de crédito.
As eleições influenciam as expectativas, mas não paralisam as decisões
Uma pesquisa realizada pela Loft em parceria com a Offerwise, com 1.400 brasileiros, ajuda a entender esse comportamento.
Entre os entrevistados que pretendem adquirir um imóvel, 51% afirmaram que a eleição presidencial não altera seus planos de compra. O estudo também identificou consumidores que consideram antecipar suas decisões diante da possibilidade de mudanças no cenário econômico.
Existe, claro, uma parcela do público mais cautelosa. No mesmo levantamento, 48% demonstraram insegurança em relação à contratação de financiamentos de longo prazo.
Os dois dados precisam ser analisados em conjunto.
Existe preocupação com o ambiente econômico, mas isso não significa necessariamente desistência ou paralisação. Para muitas famílias, a decisão de compra continua sendo determinada principalmente pela combinação entre necessidade, oportunidade, renda, valor de entrada e condições de financiamento.
É justamente aí que planejamento e informação ganham importância.
A intenção de comprar imóveis atingiu um dos maiores níveis dos últimos anos
Outro indicador reforça essa percepção.
Segundo levantamento da Brain Inteligência Estratégica, a intenção de compra de imóveis atingiu 52% no segundo trimestre de 2026, maior percentual registrado desde o início da série histórica da pesquisa. No mesmo período de 2025, o índice era de 49%.
O dado mostra que, mesmo em um cenário de juros elevados e de maior atenção às questões políticas e econômicas, o interesse pela aquisição de imóveis permanece forte.
Há, entretanto, diferentes estágios dentro dessa intenção.
Dos entrevistados, 38% pretendiam comprar um imóvel, mas ainda não haviam iniciado a procura. Outros 10% já pesquisavam propriedades pela internet e 4% estavam em uma etapa mais avançada, realizando visitas.
Isso representa um contingente significativo de potenciais compradores entrando ou avançando na jornada de aquisição.
E existe uma consequência prática importante: quem começa a se planejar antes tem mais condições de avaliar oportunidades quando elas aparecem.
Os números de vendas confirmam que o mercado continua girando
A movimentação não aparece somente nas pesquisas de intenção.
No primeiro semestre de 2026, foram comercializados 226.536 imóveis residenciais novos no Brasil, crescimento de 5,4% em comparação com o mesmo período de 2025, segundo os Indicadores Imobiliários Nacionais divulgados pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção, a CBIC.
Somente no segundo trimestre foram vendidas 113.676 unidades, crescimento de 5,3% em relação ao mesmo período do ano anterior.
São números relevantes porque aparecem em um ambiente que ainda apresenta desafios para o consumidor, principalmente em relação ao custo do crédito.
Isso não significa que todas as regiões ou faixas de preço estejam se comportando da mesma forma. Existem diferenças importantes entre mercados, tipos de imóvel e perfis de compradores.
Mas os dados nacionais ajudam a afastar a ideia de um setor simplesmente esperando a eleição terminar para voltar a funcionar.
O mercado continua acontecendo agora.
Quem espera também assume um risco
Quando existe incerteza econômica, adiar uma decisão pode parecer a alternativa mais conservadora.
No entanto, esperar também envolve riscos.
Um imóvel disponível hoje pode não continuar no mercado. Seu preço pode mudar. As condições de negociação podem ser diferentes daqui a alguns meses. Taxas de financiamento podem subir ou cair. A renda do comprador também pode mudar.
Por isso, tentar acertar exatamente qual será o melhor momento futuro para comprar um imóvel é uma estratégia difícil.
A decisão mais consistente é analisar as condições disponíveis no presente e verificar se elas fazem sentido para aquele comprador.
Isso significa avaliar renda, entrada, comprometimento financeiro, prazo de financiamento, custo total da operação e características do imóvel.
Se a conta é saudável e existe uma boa oportunidade, adiar exclusivamente por expectativa em relação às eleições pode significar abrir mão de uma condição interessante sem garantia de encontrar outra melhor depois.
Crédito aprovado antes pode mudar a negociação
Outro ponto importante é a maneira como o consumidor entra no processo de compra.
Muitas pessoas primeiro encontram o imóvel e somente depois começam a descobrir quanto conseguem financiar.
Fazer o caminho inverso pode ser mais eficiente.
Conhecer antecipadamente a capacidade de crédito permite estabelecer uma faixa de preço mais realista para a busca, dimensionar o valor necessário para entrada e compreender melhor quanto aquela aquisição representará no orçamento mensal.
Também aumenta a capacidade de negociação.
Um comprador que já conhece suas possibilidades financeiras consegue tomar decisões com muito mais clareza do que alguém que começa todo o processo depois de encontrar o imóvel desejado.
Em momentos de maior incerteza econômica, essa preparação se torna ainda mais relevante.
Informação pesa mais do que especulação
O mercado imobiliário possui uma característica diferente de muitas outras decisões de consumo.
As pessoas não compram imóveis simplesmente porque determinado ano parece economicamente favorável.
Elas compram porque precisam mudar de casa, querem sair do aluguel, tiveram filhos, mudaram de cidade, aumentaram sua renda, estão formando patrimônio ou encontraram uma oportunidade adequada às suas condições financeiras.
Essas necessidades continuam existindo independentemente do calendário eleitoral.
E é justamente essa demanda estrutural que ajuda a explicar por que o mercado segue movimentado em 2026.
Isso não significa ignorar os possíveis efeitos da política econômica. Mudanças em juros, inflação, emprego, renda ou disponibilidade de crédito podem alterar as condições do mercado e devem ser acompanhadas.
Mas existe uma diferença importante entre considerar esses fatores e paralisar uma decisão esperando por uma condição futura que ninguém consegue garantir.
Planejamento é uma estratégia melhor do que tentar prever o futuro
Para quem considera comprar um imóvel nos próximos meses, a pergunta mais importante talvez não seja “devo esperar as eleições passarem?”.
Perguntas mais úteis seriam:
Qual imóvel cabe de fato no meu orçamento?
Quanto consigo financiar hoje?
Qual entrada preciso ter?
Quanto posso comprometer da minha renda sem prejudicar meu planejamento financeiro?
Quais condições de financiamento estão disponíveis?
Existe margem para melhorar essas condições?
Responder a essas questões oferece uma base concreta para uma decisão.
Na CrediPronto, acompanhamos diariamente compradores em diferentes momentos dessa jornada e sabemos que informação financeira pode fazer uma diferença importante entre apenas desejar um imóvel e estar preparado para adquiri-lo.
Por isso, antes de simplesmente colocar os planos em espera por causa das eleições, considero mais eficiente fazer o planejamento financeiro, entender a capacidade de crédito e acompanhar as oportunidades existentes no mercado.
O cenário político pode mudar. As condições econômicas também.
Mas o mercado imobiliário não espera.
E quem estiver preparado terá mais condições de reconhecer uma boa oportunidade quando ela aparecer.